Durante o trabalho, a pior coisa para se fazer era tarefa de casa, ainda mais na sala de seu pai. Passara a noite acordada, revendo os deveres e trabalhos para o dia seguinte, mesmo assim, parando as cinco da manhã para ir dormir, esquecendo ou deixando-os pela metade. As sete acordaria, supostamente. Seu relógio despertou, seu sono profundo não ouviu. Sonhara novamnte com a menina de cabelos pretos e curtos, cujo o nome ela gostaria de ter esquecido. Pita Morgan não queria fugir dos trilhos, não poderia, ou teria motivos?
Levantou, o relógio retangular marcava 07:48. Sua aula, às oito. Ela se levantou, vestindo um perna da calça enquanto vestia o tênis e uma camiseta, depois de seu usual creme de cheirinho doce. Mal os olhos haviam se acostumado a luz do dia, ela saira, sem tomar o café da manhã ou tomar banho, como costumava fazer. Os passos até escola foram curtos e apressados e finalmente, abrira a porta da escola.
- Bom dia, Srta. Morgan - Disse Doug, com algum entusiasmo. Oggi, oggi, oggi! Ela o ouviu dizer, depois disso. Poderia pedir um dia pior? Ainda assim, ela estava bonita. Pita poderia tomar um banho de chuva forte inesperado e continuar com os cabelos bonitos, ou com as roupas em um caimento quase perfeito, mesmo que disso, ela negasse.
Não bateu à porta da classe, nem olhou para os vidros no interior. Primeiro dia de aula, ótimo. Sr. Heartmann, o professor de ciências, ensinava algo a ver com bactérias. Os rabiscos nos quadro não foram entendidos por toda a turma, que parecia cochilar. As cabecinhas todas, abaixadas. Haviam três ou quatro, apoiadas pela mão, o cotovelo sobre a mesa, de olhos tediosos e monótonos, prestando atenção em sua imaginação criativa. Pita suspirou, procurando com os olhos por uma cadeira vazia.
Primeiro dia de aula. Aluna transferida. Sobrinha do muquirana mal amado do Salazar. Tinha como ser pior?! Acordar atrasada, um banho corrido, o cabelo ao invés de ser lavado, bem, só foi molhado e passado um creme para não da ruma aparência tão ruim. Pés colados no azulejo do piso do banheiro, aerosol nas axilas e pronto. Agora era só seu usual adidas totalmente revestido por fita isolante preta, uma bermuda curta, blusa de malha preta e um moleton. Some tudo isso a um par de fone de ouvidos e uma mochila e finite! Pronta para a volta às aulas. - Venha direto para casa depois da aula, sabe que tem trabalho à fazer - Só fazendo um aceno de cabeça sem nem ao menos ter ouvido as palavras do meia-idade, com a mochila nas costas, parti subir a rua que levava a escola. Subida cansativa, mas que depois a decida, os problemas haveriam de acabar. - Fleur, miła Fleur, powiedz gdzie się podziałaś ah gdzie?! - Num banco, após me sentar, tirei os tênis e os coloquei na mala no lugar dos patins escuros. Equipamento no pé, mala nas costas outra vez e finalmente pude deslizar com velocidade até Bristol High, High, high... high. O sono maldito, adidas outra vez, agora era encarar a aula. Felizmente o professor chegara dois minutos após eu ter me instalado em uma cadeira do lado da parede mais ao fundo e pude passar despercebida ao menos naquela primeira aula. Mala no chão, joelhos esticados, costas na madeira e o capuz na frente dos olhos; sempre odiei dormir, cochilar, o que fosse, com luz. Felizmente nem tudo estava dando errado, afinal, o homem parecia dar aula para si mesmo.
Podia estar despreparada para aquele primeiro dia, sua maquiagem havia se espalhado pela mochila, o rosto estava limpo, livre do pó, deixando que as poucas sardas aparecessem.
- Sente-se. A segunda cadeira da terceira fila, Srta. Morgan - Pita ainda pediria se ele tinha um mapa, irritando-se com tantas explicações. Passando entre as fileiras de vagar, esbarrando em alguns alunos que nem se mexeram, ela viu, de perfil, enfiada de baixo de um capuz. àquela garota... A do sonho, do depósito, do parque. Erika. Pita suspirou, sentou-se no lugar indicado, deixando a mochila no chão. Ela estava há duas carteiras atrás.
- O botulismo é mais comum em áreas de... Srta. Morgan - Ele ergueu as sobrancelhas, claramente excitado com a pergunta que viria a seguir, da única aluna que aparentemente estava preocupada em prestar atenção.
- Com licença, professor - Pita ergueu a mão, engolindo seco. - Posso ir ao banheiro? - Os olhos do professor se estreitaram. Ele fez um sim de má vontade com a cabeça e fez um gesto com a mão. Com a primeira caneta, de letra caprichosa, escreveu em um bilhete, esperando que Erika não pudesse vê-la enquanto saía, apenas que lesse o papel e mais tarde, tivesse a surpresa. "Banheiro feminino" Foram as palavras. Era bastante claro para Pita, o suficiente, ao menos. Não sabia dizer se gostaria de vê-la novamente, depois do beijo e da última vez, no parque. Ela deveria deixar que Erika a visse, deveria chamá-la para uma explicação? Era óbvio que algo estava acontecendo, algo fora do comum. Não conseguiu entender seu coração; e sua mente, gostaria de vê-la outra vez? Ou que fosse embora para sempre? Ergueu-se e passando pelo corredor das mesas, deixou o bilhete no rosto de Erika, fazendo com que a folha rasgada fizesse cócegas em seu rosto. Ela deixou a porta sem olhar para trás e seguiu para o único banheiro do bloco.
O sono estava tão gostoso... revigorante... Grama, noite, lua, nuvens. Onde estava?! Aquilo era um caminho. Chão, terra, barro. Acabara de chover? Os olhos claros se voltaram para o céu estrelado e de poucas nuvens altas que sumiam de vista por sua escassez de água. O par de tênis branco estavam lá. Será que deveria sujá-los?! A menina não sabia o que fazer, nos olhos escondiam a dúvida. Por que seguir em frente? Por que não voltar para trás? Geralmente o caminho inverso significa segurança... isso quando não está sendo perseguido. Mas naquele momento não parecia estar. Caminho sombrio. Com o cenho franzido algo lhe chamou a atenção: passos. Eles não estavam vindo em sua direção, pelo contrário... pareciam fugir de si. O corpo parecia que finalmente tomara consciência do que se passara; tomara uma puta chuva. Dos cabelos negros até as meias estava encharcada, pior, agora via que nas canelas e coxas, vestígios de que havia corrido estavam visíveis por estarem sujas. Sem pensar mais duas vezes, a menina começou a correr. Parada ali não ia ficar. Os passos pareciam cada vez mais perto conforme ia correndo, estava alcançando a pessoa... estava próxima... Um ser de capa verde caminhava pela floresta. Quem era?! Um pulso fino, belo, acompanhado por uma mão de dedos delicados, apareceu. Precisava saber quem era, será que a estava tirando daquele lugar? Quando estava para tocar naquela pele que parecia imaculada... - Você deve ser a senhorita Volkova, não é?! - Um despertar assustado e percebi que tinha baba no canto da boca. Acenando com a cabeça despreocupada, tentei limpar o canto da boca com a manga do moleton discretamente. - Pode nos dizer como as bactérias podem se reproduzir de forma sexuada?! - Cérebro; busca; bactérias; reprodução. - Então... er, professor, é por conjugação, basicamente elas trocam material genético quando se conectam uma à outra, certo?! - Por que o homem tinha que implicar comigo?! Não era só eu que estava dormindo... acho que não. - Sim..da próxima vez, tente não babar em cima da carteira senhorita - Já não estava mais ligando para o que o homem dizia até que olhei para minha carteira e vi um bilhete. O papel era pequeno e a letra feminina. Após ler o conteúdo curto, pigarreei com a maior cara de pau e ergui uma das mãos para falar com o professor. - Com licença... será que posso ir ao banheiro?! Não quero dormir outra vez na sua aula - Com um aceno de mão, ainda sem demonstrar nada além tédio, guardei o bilhete no bolso da calça e joguei a mochila no ombro, enquanto o professor estava de costas virada. Em passos ligeiros, no que saí da sala, sorri de forma levemente maliciosa e curiosa enquanto seguia até o banheiro. O que haveria de encontrar lá?! Quando cheguei no lugar, abri a porta em silêncio e dei alguns passos com cautela. Loira, magra e de lábios perfeitamente delineados. Não pude acreditar no que estava vendo. - Deixou cair isso na minha carteira, eu acho - O bilhete fora tirado de dentro do bolso e colocado na pia, em frente a garota, afinal, estava agora atrás dela. Caixinha de surpresas, talvez não fosse tão ruim vir para a Inglaterra.
Depois de seguir pelo corredor longo que levava ao lado esquerdo, o banheiro feminino. Pita empurrou a porta quase azul anil e entrou, encostando-se na pia, de cabeça um pouco baixa. Não sabia se ela viria, se acordaria e se queria vê-la, mas parecia algum tipo de milagre, algo que deveria acontecer e Pita não evitaria isso, não iria contra o destino, iria? Ela sorriu ao pensar nisso. Nunca acreditou em destino.
- Deixou cair isso na minha carteira, eu acho - A porta se abriu silenciosamente, ou ela havia pensado alto demais dentro de sua mente para não escutá-la. Pita virou-se para a garota que a esperava.
- O que você faz no meu colégio? - Disse, pensando ainda sobre destino e sobre o modo como a garota-Erika havia colocado os lábios nos seus para deixar que a fumaça invadisse seus pulmões, também. Ela balançou a cabeça, tentando espantar aquele pensamento. Deu alguns passos para frente, ainda que longe de Erika. Não esperou que a resposta viesse logo, virou-se de lado para ela, olhando-se no espelho. Passou a mão nos cabelos longos e loiros, os cachos caindo em conjunto na altura de sua cintura.
Ou talvez fosse. Já havia convivido com pessoas como ela, mas algo que nunca consegui compreender é a maneira como essa gente consegue ser tão possessiva em relação à tudo, desde uma caneta até uma instituição que não lhe pertence, como a própria escola. O que fiz em reposta à garota?! Simplesmente ri de forma debochada. Ela queria ter controle pelo espelho? Então teria somente minhas costas como objeto de estudo. Queria uma conversa privada, logo fui até atrás da porta do banheiro, peguei uma espécie de placa de chão escrito "Reformas" e coloquei fora do banheiro, bem em frente a porta. Depois tranquei a mesma e voltei a me aproximar da garota loira sem pressa alguma. Virei então de costas para o espelho, larguei a mochila aos meus pés me recostando na pia e cruzei os braços. Com um sorriso enviesado no rosto deixei a cabeça pender um pouco para o lado. Agora se ela quisesse ter controle, também teria. Se quisesse me olhar, não poderia me ignorar usando o espelho como filtro; seria o mesmo como se ela tivesse mais poder. - Seu colégio?! Não sabia que você tinha comprado ele, até onde eu sei é público; do Estado, sabe?! - Sem dizer mais nada, fiquei a observá-la com um leve ar sacana no rosto, como se não a levasse a sério. Será que ficaria brava?
De certa forma, sabia que haviia sido rude, mas que alternativa lhe restaria? A garota poderia estar em todo ligar que ela estava, sempre ao mesmo tempo. E agora em sua sala? Nunca havia a visto em Bristol, o que acontecia agora? Usando o espelho, Pita observou-a roubar a placa de "reformas" de um dos box do banheiro e colocar na própria porta, e trancar. Seu coração acelerou, ela não sabia o que viria dessa vez. Sentiu que não estava no comando ali. Pita tentava controlar as situações com tudo o que tinha e com tudo o que podia, mas ela sempre mudava. Erika virou se costas para o espelho, evitando seu olhar. Sua mente estava confusa, quando as palavras sairam de sua boca, àquele riso sarcástico e debochado; lágrimas vieram aos olhos de Pita e ela tentou escondê-las a todo custo. Talvez fosse o medo de que Erika tivesse seu futuro as mãos, ela tinha? Pita suspirou e se virou, respondendo um simples "não", susurrado.
Por que era tão difícil para ela estar em pé de igualdade... ou quase isso?! Não devia ser tão perturbador assim, afinal, ela me chamara, ela quisera conversar, os motivos para isso, não fazia idéia, talvez fizesse lá no fundo, num lugar escondido, mas naquele momento, só estava ali, esperando pela resposta da garota. Fala. Era isso que queria, queria que falasse comigo, ou fizesse alguma coisa, não dissesse nada, só queria entender porque estava ali. Fiquei em silêncio por não sei quanta fração de tempo, fitando agora não mais ela, porém um dos boxes que estava exatamente à minha frente. As mãos se encontravam dentro dos bolsos da bermuda jeans até que ela respondeu, num tom de voz duvidoso, um "não". Por que sua voz saíra daquele jeito? Era sarcasmo, mas não tinha só essa carga... - Então agora está sabendo - Meu tom de voz chegara a ser até um pouco seco, porém, tudo mudou quando finalmente olhei para o rosto dela. Por que olhos tão brilhantes? Não era o prazer da posse, não senhor. Franzindo o cenho, encostei o ombro no dela e pigarreei. - O que foi? Algum problema? Comigo? -
Seu tom de voz, àquele sarcasmo... Levaram sua decisão do que fazer muito mais a sério. Ela queria chorar, mas não queria demonstrar fraqueza, não sabia o que deveria fazer, nem ao menos imaginava o por quê as lágrimas invadiram seus olhos quanod a ouviu falar daquele jeito. Mal se conheciam, de que importaria? Pita suspirou e tentou ainda controlar as lágrimas, mas as pálpebras queriam fechar e traí-la.
- Não - Disse novamente, engolindo seco. - Não é você, eu acho que sou eu - A reação àquela estranha experiencia de gostar tanto de alguém e odiá-la ao mesmo tempo. - Eu não sei - Repetiu baixinho, para si mesma, deixando as costas escorregarem pela parede de azulejos, até que chegasse ao chão.
Esquisito. Tínhamos nos visto quantas vezes? Duas? Essa era a terceira, certo?! Que problema ela tinha? Ainda não compreendia porque queria falar comigo. Infâme aquela sensação de impotência. Ela estava se segurando, sabia disso, só não tinha idéia de que ela cederia tão facilmente ao chão. Depois de vê-la desabar, e chutar minha mala para o lado, me agachei à sua frente apoiando um joelho na lajota e lhe toquei o lado da panturrilha com uma das mãos de leve. - Certo, tem alguma coisa de muito errado aqui. O que não sabe? - Tinha quase plena certeza de que se perguntasse o que acontecera ia receber como resposta "Já disse que não sei". Afastei então minha mão de sua perna quando ouvi alguém forçar a porta para abrir e gritar, de fora, algo como "Não acredito que está interditado já no primeiro dia". Depois de olhar, por reflexo, para a porta, voltei a fitar, sem interesse no que acontecera lá fora, à loira que estava bem na minha frente. Agora apoiando meu antebraço em meu joelho, dei de ombros. - Não pode ser tão ruim assim -
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