terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Episódio #02 - Segundo Contato.

Depois de todo o tumulto de final de ano, todo o recomeço parecia acalmar uma tempestade. Mesmo assim parecia agitado e confuso. Pita bocejou de sono, seu expediente no trabalho havia acabado há duas horas atrás, o restaurante dos Morgan ficava longe dali, tivera que caminhar durante todo o percusso. Em uma das escadarias próximas ao rio, Pita sentou-se um tanto desconfortável, embora ainda lembrasse que qualquer coisa era melhor do que trabalhar com sua família. Geralmente ela esforçava-se ao máximo para agradá-los, deixar tudo conforme pedido, mas nunca estava bom. Na verdade, não lembrava sequer uma vez que alguém havia a parabenizado por algo que fez, apenas das gritos e das broncas que recebeu; conseguia se lembrar de quase todas. Pita virou-se e balançou os pés acima da água, seu all star de velcro antigo e preto, combinava com o shorts-saia de seu uniforme de trabalho. Viu seu reflexo na água, os longos cabelos cacheados caindo sobre os ombros abaixo. Ela sorriu, a imagem sorriu-lhe de volta e depois parou de sorrir.


Estava cada vez mais difícil encarar tantas situações que cobravam de sua responsabilidade. Benjamin não sabia levar nada a sério e tampouco sabia o que a responsabilidade poderia trazer aos indíviduos que a possui. Acreditava-se que apenas seguir seus instintos era o que importava. Com o término das férias significava apenas uma coisa: Teria de acordar cedo novamente só para fazer uma média no colégio todas as manhãs, mostrando-se um bom filho para Lisbeth com suas notas máximas ganhadas às custas dos outros. Mães costroem sonhos em cima de seus filhos, vontades próprias que deixaram de realizar alguma vez na vida, por algum motivo qualquer. Lis era uma dessas, mas Ben sabia que não viveria para sempre nessa peça de teatro que ela o colocara. Tentava apenas conviver com aquilo e levar uma vida normalmente, assim como os jovens que compunham seu grupo de amizades.
O relógio-despertador em sua escrivaninha marcava 10h31min. Porra! perdi hora outra vez, pensou passando as mãos nos cabelos bagunçados. Pegou o celular que estava jogando num dos cantos do quarto e notou as muitas ligações perdidas de sua mãe, com toda certeza ela o mataria por perder o exame de História novamente (que já havia sido remarcado por ela mesma), ele tinha consciência disso. Foda-se. A única maneira de evitar mais discussões era passar o dia fora de casa, dispersando-se com qualquer outra coisa que não o aborecesse. Ben vestiu uma de suas camisas xadrez favoritas, uma calça jeans, colocou seu tênis Converse e partiu levando apenas algumas notas de Libra na carteira. Queria encontrar ela, a única que o escutaria sem apontar seus erros e defeitos. Pita, onde ela poderia estar? Permaneceu num monólogo mental por alguns instantes. Ben se lembrara que a garota dos cabelos louros cacheados costumava passar no Castle Park todas as manhãs, tinha hábitos estranhos até para uma garota com características normais, mas mesmo assim era previsível e isso o ajudava. Caminhou pelas ruas de Bristol com passos longos, a fim de que chegasse o mais rápido. Chegou na praça, subindo os degraus das escadas que levava até à fonte principal - era onde Pita costumava ficar - mas quando se aproximou do local, ofegante demais para respirar de forma natural, não viu nada a não ser o vazio. Resolveu mandar uma mensagem de texto no celular dela "Oi Pepita, onde você está? Preciso de você. Agora." digitou de forma habilidosa no teclado do aparelho. Talvez ela tivesse alguma idéia de como o salvar dessa encrenca com Lisbeth e, principalmente com o professor de História que não tinha sequer um pouco de afinidade por Ben.


O sol não aparecia naquela tarde,e quem quer que comandasse o clima nesse dia provavelmente estava estranhamente indeciso.Era isso que Mini pensava enquanto colocava uma pequena toalha cor de rosa na grama ao lado de uma árvore velha,se sentando ali e observando o céu calmamente. Não havia sol e parecia que logo estaria prestes a chover. Não fazia frio,mas também não fazia calor.Minerva soltou um leve suspiro,pegando seu celular em sua bolsa de couro negra e verificando se havia mensagens para ela,apesar de saber que não haveria. Ninguém a procurava,ligava ou mandava um simples sms havia poucas semanas,e apesar de sentir falta dos amigos,ela se recusava a procurá-los,também. - Não preciso desses malditos da porra.
A loira murmurou e se deitou,olhando as nuvens meio escuras,não iria pensar nisso. Não iria pensar neles. Nos problemas,na escola,na vida...em nada. Ela ficou daquele jeito por um bom tempo,e ao sentir uma leve brisa,fechou os olhos.
Garotos ao longe davam risadas longas e altas,histéricas,e o som dessas risadas atingiram os ouvidos de Mini,que abriu os olhos rápidamente,percebendo que já era tarde e ela havia adormecido. - Merda! Ela se levantou rápidamente,ajeitando sua roupa e pegando a toalha que ela havia posto no chão,a dobrando rápidamente e colocando na bolsa que trazia junto ao ombro. Minerva olhou para os lados,agora ajeitando os cabelos,a garota elevou seus olhos até o local onde estavam os garotos que havia ouvido,e os ficou olhando por alguns minutos. Logo depois se virou e se pôs a caminhar,mas sabia que ficaria por ali mesmo,ela não queria ir para casa e não havia mais nenhum lugar para o qual ela pudesse ir. Talvez devesse beber algo,isso a distrairia bastante e lhe faria bem,mas Mini não tinha certeza se era uma boa idéia,então apenas ficou ali mesmo,caminhando pelas extensões de Castle Park procurando por algum rosto familiar.


Pita sentiu o celular vibrar no bolso de sua camisa, era Benjamin. Ele era como um amigo, sabia que ele estaria lá quando precisasse e ela estaria ali, o clima entre os dois era relativamente bom, apesar dos problemas que os dois traziam de dentro de casa. "Oi Pepita, onde você está? Preciso de você. Agora" Pita sorriu ao ver seu apelido na tela do Iphone. E digitou com dedos hábeis. "Eu estou vendo você. Olhe para trás" Deu um ótimo sorriso, olhando para o louro há alguns metros, virado de costas. Ela se levantou de vagar, limpando a sujeira de sua roupa fareos minúsculos de cimento e caminhou até ele, um pouco mais rápido agora. Seu sorriso desapareceu quando notou a expressão no rosto do garoto.
- Foderam você - Disse, mesmo o pouco tempo que conhecia Benjamin, ela sabia dizer. Tomou-o num abraço apertado, envolvendo os braços em sua nuca de uma forma carinhosa e consoladora por alguns segundos, na ponta do pé. - O que foi que... - Seus lábios entre abriram-se quando Pita fitou através dos ombros de Benjamin. Era ela? Ela... Erika Volkova, sua mente lhe disse. Pita engoliu seco, nunca havia encontrado a garota em Bristol desde que nascera e agora, ela parecia estar em toda parte. - Ela. - Disse para Benjamin. Tomou amão do garoto na sua, sem que lhe desse muito tempo para responder e andou em direção à garota. Erika estava parada de propósito, perto para valer assim, apenas observando-os ou o acaso levou ao acontecimento? Pita pigarreou.
- Benjamin precisa de um isqueiro - Disse, inventando a suposta necessidade para justificar a própria curiosidade.


High. Desde que hora estava trancafiada no quarto? Desde quando chegou em casa, Erika. Ah sim. Erva, perfeitamente preparada, saco de pão e voilá! Quantos tinha preparado até agora? 09 03 p.m. Sete, sete perfeitos cigarrillos verdes. Num pacotinho de plástico transparente e vedado a vácuo, havia preparado a erva que antes era um tijolo; por assim dizer. Come here, please, leave the flowers, set them free Be peacefull; where are your soul?! Your braaaaain?! - Sun lights up the day time - Batidas. Uma, duas três.- Que fumaça é vinda aí do quarto?! Da pra sentir o cheiro lá em baixo! Que merda você está fazendo, piveta?! Abra essa porta JÁ!! - Olhos grudados no teto, semicerrados, entorpecidos. Que penislongo, hijo de una perra, estava querendo entrar?! Pancadas silenciosas aos ouvidos, os fones estão tão altos... Onde estava?! Outro plano, mundo vertical. - Moon lights up the night- Uma guerra acontecia porta a fora. - Saia logo daí menina, anda, saia ou vou arrombar essa bosta! - Calça jeans, adidas, camisa e um chapéu. Fones estratégicamente colocados nos ouvidos e alguns finos no bolso da calça; no cash, id no traseiro e o resto?! Bem guardado debaixo do assoalho. - Agora você vai... Hey, mocinha, fique aqui - A voz dele parecia tão longe. O susto que o bigodudo magrelo levou ao me ver abrir a porta; impagável. Tive de rir, principalmente pelo fato dele praticamente ter caído para dentro do quarto. Sem dar ouvidos, o que ele viu foram minhas costas e o rastro de minha fumaça. Dois degraus de cada vez e mais uma porta fechada. Paz. Os pés levaram até Castle Park. Era o segundo aquela noite. Não conhecia praticamente ninguém de Bristol, a não ser o público que costumava fazer compras no mercado. Homens de meia idade barrigudos, mulheres malucas e velhos sem ocupação. Não fazia idéia de quanto tempo estava ali. O que ficara fazendo por tanto tempo?! Ouvindo a lista de reprodução, com um beck na boca. Não costumava fumar de forma desgovernada; raramente o fazia. Muito melhor e mais proveitoso, prolongar o mundo de Salvador Dalí. Bem, isso poderia ser verdade para todas as outras vezes em que estava fumando, mas naquela noite, não era de toda. Desde que havia me sentado em um banco de madeira, estava com os olhos cravados nas costas de alguém. Era uma garota loira que apesar da hora, estava lá, sentada no chão em cima de uma toalha. Nada havia me tirado a atenção; nada, nem o bando de moleques que haviam passado atrás de mim, falando merda e bebendo algo que parecia ser vodka. - Por que não?! - Estava observando a garota por tanto tempo que não custava nada ir lá. Quando me levantei e tomei vontade para ir, parei de pé ao lado de uma árvore. Me recostei ali e franzi o cenho, tentando acreditar no que meus olhos viam. Não era a Morgan?! Será que o outro era amigo? Namorado? Pareciam íntimos. Ficaria ali, calada, até que eles fossem embora e eu pudesse continuar meu caminho. Não foi o que aconteceu. - Benjamin precisa de um isqueiro -  O coração ainda batia rápido, euforia e letargia, tudo ao mesmo tempo. Ela viera, podia jurar que da próxima vez que nos encontrássemos ela fingiria que nunca tinhamos nos visto antes. Com uma expressão tranquila no rosto, após encarar a garota sem dizer nada, virei meu rosto para o rapaz e sorri de forma duvidosa. Verdade ou irônia?! Nem eu mesma sabia. - Então é Benjamin? - Já não estava com cigarro algum nos dedos ou na boca, precisava de um. Sem dizer mais nada, tirei o isqueiro do bolso e o abri, trazendo o fogo novamente à vida. - Fogo?! -

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