Era a décima vez no dia que era tirada do caixa e da cozinha para ir ao depósito. Ouvia seu pai gritar seu nome em bom tom, vindo da sala de administração. Ele gostava de mandar, pensava Pita, sempre.
- Preciso atender a fila! Porque você não vai até o depósito? - Disse ela à ajudante, chamada Melany. Ela estava ali há alguns meses e seu pai a mimava como se fosse sua filha, quando na verdade o trabalho sujo ficava para quem não o merecia. Melany deu um sorriso convencido.
- Porque ele mandou você - Ela deu quatro passos lentos e charmosos em direção ao balcão do caixa, enquanto Pita saía. Ela se pôs em seu lugar e logo começou a dar risos forjados e conversar com os clientes que passariam o cartão de crédito na máquina. Pita desceu algumas escadas para o patamar de baixo, onde haviam mais mesas. Seu pai fora recentemente obrigado a reformar o restaurante, dando espaço para mais cinquenta mesas, devido a lotação nos finais de semana, além de dar espaço para uma mini-lanchonete que era como uma padaria, onde Pita atendia à tarde, depois de fechar o caixa no almoço. Seguiu para as portas dos fundos, onde se encontrava a cozinha. Sua avó estava sentada em um dos cantos, supervisionando a lavagem da louça e reclamando baixinho.
- PITA! - Ela apenas se deu o trabalho de levantar o olhar. - Volte logo aqui e lave aquele monte antes de ir abrir o forno para pegar os pães. E rápido. Se seu pai vir mas uma forma com todos os pães torrados, não vou querer estar aqui para ver! - Sua voz foi grave, urgente. Ela revirou os olhos e voltou ao seu trabalho, um crochê mal feito em linha bege. Os ombros de Pita estavam carregados, tantas coisas com que se preocupar, queria apenas poder fugir dali, nem se fosse para sentar no chão do banheiro e respirar um pouco. A pilha de louça era enorme, deviam ter mais de duzentos pratos ali! Pita terminou tudo com a maior rapidez que conseguiu, sua avó já havia ido embora, junto com as outras cozinheiras.
Virou-se então, com os cabelos presos num coque desajeitado e com o avental molhado e seguiu para o forno, onde os pães desprendiam um cheiro delicioso. Com uma das luvas de borracha, ela retirou a forma a tempo, os pães estavam dourados, prontos para a vitrine da lanchonete. E então suspirou, quando voltou a cozinha, não lembrava-se mais do depósito. Seu pai havia dado a ordem, em uma hora haveria de pegar caixotes na parte de trás do restaurante, mas para Pita, o serviço estava terminado. Sem pensar, atravessou a cozinha e roubou um cigarro acompanhado de um isqueiro de seu pai, ele fumava como louco. Quando abriu a porta, tudo era escuro, havia um feixe de luz vindo do portão de aço enorme. Entre os caixotes de alimentos, Pita sentou-se, balançando os pés em uma das plataformas onde os caminhões descarregavam. Obvimanete, de costas para a porta do depósito, para ficar de olho na porta da cozinha. Receberia uma bronca se seu pai a visse parada em horário de expediente. Ela girou o cigarro entre os dedos, não sabia se deveria. Talvez ele descobrisse pelo cheiro e então, ela estaria morta. Pita suspirou, os cabelos encaracolados e dourados caindo um pouco acima da cintura. Ela nem saberia como acender o isqueiro.
- Por que ainda liga pra mim?! - - É só você mudar de idéia, seu pai e eu deixaríamos você voltar pra casa, nós queremos que volte, você só precisa aprender alguns valores, seu pai tem conversado com seu tio, pra saber se você está melhorando, se está voltando ao normal ou se ainda continua.. - - O que?! Continua o que? Doente? Isso não é doença, mãe! - - Filha, isso não é de Deus, se você fica perto demais de pessoas assim, fica como elas, está só faltando reza na sua vida e... – - Chega! Eu tenho que ir, logo Salazar vai querer me manter até mais tarde na merda da venda só por ter ficado falando no telefone, tchau - TU TU TU TU. Segunda feira, meio da tarde; mercado cheio e só eu de caixa. Era pedir para que Salazar, meu tio, quisesse me enforcar e aumentar meu expediente, como se eu tivesse feito alguma pirraça. Inferno. Preferia mil vezes trabalhar em qualquer outro lugar, mas tinha de ser ali, afinal, como meu pai frisava até maior idade eu ainda era responsabilidade deles; até ser maior de idade, eu deveria morar sob o teto deles, seguir suas regras, manias e idéias. Engraçado que não era sob o teto dele que estava morando. Ironia. Desde que fora mandada para viver ali, com meu tio Salazar, não tinha liberdade para ir trabalhar em qualquer outro lugar que não fosse seu próprio negócio; motivos? Deveria pagar minha estadia lá de alguma maneira, as vezes chegava a cogitar a idéia de sair de lá e trabalhar em outro lugar, mas todo o dinheiro que ganhasse, ele haveria de comer em aluguel, alimentação, água, luz, o inferno que fosse só p'ra me deixar dura. Bem, o negócio então era dançar conforme a música até o momento em que eu pudesse sair dali e ter minha própria vida, ou me emputecesse de vez a ponto de preferir não ter um puto tostão no bolso, a continuar aguentando as manias malucas daquele excêntrico; aquilo sim era doença... doença mental! - O que estava fazendo no telefone?! - A fila aumentava e ele chegara ali só para me deixar nervosa; pena que tudo o que ele dizia, entrava por um ouvido e saia pelo outro... na maioria das vezes. - Não interessa. - As compras iam sendo passadas uma a uma; uma a uma iam sendo registradas; uma a uma depois iam sendo empacotadas por minhas próprias mãos. - Menina insolente! Quando terminar com essa fila venha até meu escritório, com urgência, se te pegar fora do serviço é do seu salário que vou descontar até que fique me devendo! - Com um sorriso forçado e uma breve continência, torci o nariz numa expressão de desagrado quando ele fora embora. O que ele haveria de querer de mim?! Inferno. Só o que poderia fazer era terminar com aquela fila de empregadas e velhos que estavam indo lá para comprar verduras para semana ou o dia seguinte. Foi o que fiz. Meia hora depois e de um cartão de crédito recusado, caminhei sem pressa até o escritório de meu tio que ficava aos fundos da venda; morávamos a uma quadra dali, logo era um estabelecimento puramente comercial, mas sempre quem ficava para fechar aquele lugar era eu, infortúnio. - Então estamos conversados, espero que goste de trabalhar conosco, estávamos precisando de alguém mais eficiente lá na frente - Estava para abrir a maçaneta da porta quando ouvi a voz cantada de meu tio. Lá na frente?! Ele estava contratando alguém? Será que ele iria demitir a mim e mandar que voltasse para casa? Talvez fosse bom, voltar para minha cidade, não necessariamente voltar para casa, mas ao menos para os poucos amigos que havia deixado lá. - Muito obrigada Senhor Volkova, não vai se arrepender – Então a porta se abriu! Estava em meio a devaneios e esperanças, até que vi a cara dos dois seres humanos que se encontravam lá dentro. Um era alto, relativamente magro e de olhos azuis, enquanto o outro era praticamente da minha altura, loiro, magricelo e com luzes no cabelo; na realidade, o segundo ser, para ser mais precisa, era uma mulher, de seus trinta anos, que provavelmente achava que ainda tinha vinte. Com uma expressão confusa, olhando de um para outro, recebi um afastão do braço de meu tio, para que a moça pudesse passar pela porta. - Essa é minha sobrinha, vai ficar no lugar dela, pode ir para o caixa, amanhã ela vai te entregar seu avental. Sempre que precisar de alguma coisa, é só pedir para a Erika aqui, se ela não atender, é só vir falar comigo - Toda a esperança que tinha no coração, fora embora numa questão de segundos. Ela iria tomar meu lugar, com certeza haveria de ter problemas com a oxigenada e ainda não tinha certeza do que faria ali naquele lugar; será que ele iria me por para limpar o chão então?! - Pode deixar que vamos nos dar bem – Será que ela estava sendo simpática?! - Não é, mocinha?! – Os olhos dela não mentiam; era pura falsidade. Inferno, inferno, inferno! - Uhum - - Responda direito, Erika, educação é tudo debaixo de meu teto - O olhar mortal que Salazar havia me dado, só me fez ter vontade de enfiar a mão no meio das pernas dele e lhe arrancar os ovinhos para fazê-los mexidos e dar a ele de comer no café da manhã. - Humhum, vamos sim nos dar bem - Esboçando um sorriso forçado e sem dentes, logo revirei os olhos quando os dois ainda deram alguns risinhos e a garota fora tomar meu lugar no caixa. Merlin, me ajude. - Entre logo, como você é lenta! - Sem responder nada entrei no lugar e me joguei na cadeira em frente a mesa de meu tio, após ele o fazer primeiro. Apesar de não estar com a coluna no lugar, a curiosidade foi maior, antes que ele pudesse terminar de ajeitar os papéis, passei os olhos por cima dos contratos, os olhando de longe. - O que?! Ela vai fazer o mesmo que eu faço e vai receber mais por isso?! Qual é o seu problema, hein?! Não estamos mais no século dezoito não, só pra você saber - Havia me expressado alto demais, não é?! - O que você disse? Está morando na minha casa sem pagar nada, te dou emprego, comida e um colchão pra dormir e ainda reclama?! Seu pai disse mesmo, menina insolente e estragada. Só estou com você por pena do meu irmão - Engolindo a língua e os punhos para que não voasse na cara branquela de meu tio, olhei para o lado respirando fundo tentando controlar meus nervos. - Certo - - Só por isso deveria te descontar do salário, mas como sou uma pessoas boa, não vou. Agora, só te chamei aqui para dizer que não vai mais trabalhar no caixa, contratei ontem e hoje mais duas para fazerem isso, John se mudou para Pristol, agora você fica encarregada do estoque das entregas e da limpeza nos fins de semana, a velha Berkins está me custando demais, assim não preciso pegar ela mais dois dias para limpar esse lugar - Um faz tudo; tinha como ficar pior?! - E meu salário, como fica? - - Vá até os fundos, tem de fazer uma entrega com o caminhão para o Restaurante dos Morgan, já está carregado, John deixou pronto antes de viajar. - Era muito difícil responder uma pergunta simples? - E meu salário? E por que o John não foi entregar? - - Se quer mesmo saber... - Os olhos pequeninos se ergueram pro cima das lentes dos óculos e os braços se apoiaram na mesa. Ele iria falar sobre meu salário. - Falei a ele que não precisava, quem fosse entrar no lugar dele deveria aprender sozinho como faz - Nada de falar sobre meu salário. Inferno de homem. - Certo... - "apesar de te achar um grandessíssimo filho da puta"- Pode me dizer quanto vou ganhar com tudo isso agora?! - - Hum... quanto ao aumento do seu salário; acrescentei dez libras - Sem dizer mais nada, me levantei e dei as costas para sair logo dali. Antes de finalmente me ver livre daquele homem ganancioso e asqueroso, ainda ouvi um "Não bata a porta"; pena que já havia batido, não é?! Sem dizer nada fui para os fundos do pequeno mercado e lá estava a caminhonete de entregas. Bem, ao menos iria poder voltar a dirigir. Por uma liminar da justiça, há dois anos podia dirigir por conta dos afazeres domésticos e trabalhistas. Enfim, a chave na ignição, novo setor; é, ao menos nas entregas poderia me ver livre daquela cara feia de Salazar. Depois de dez minutos dirigindo e finalmente podendo fumar meu primeiro cigarro no dia, cheguei em meu destino, pena, pena mesmo que era uma azarada de carta maior. Quando cheguei lá para descarregar, me disseram que alguém viria assinar a entrega e me indicar onde colocar a encomenda. Dez, quinze, vinte minutos depois e nada. Já estava ficando puta da cara de ter de esperar, então decidi entrar na porta que provavelmente daria para o depósito do restaurante. Joguei a bituca no chão, retirei meu avental - que não saiba porque ainda vestia; John não usava avental quando estava em meu lugar - e fui entrar de mansinho no lugar. Quando iria bater palmas para ver se chamava a atenção de alguém, eis que vi alguém numa dúvida, muito cruel. Merlin, ela era linda! Uma garota, loira, dos cabelos encaracolados, iguais aos de anjos, daqueles que você vê nas igrejas, estava com um cigarro na mão. Ainda caminhando de leve, me aproximei de forma sorrateira da menina, apalpando um dos bolsos da calça com a mão até encontrar meu isqueiro. Quando cheguei ao seu lado, não sabia se ela havia notado minha presença, ou não, ascendi o isqueiro e coloquei a chama na sua frente. - Acho que você não deveria fazer isso -
Toda a agitação ia indo embora e o sono ia atingindo-a. Planejava ir à algma praça depois do trabalho, queria livrar-se tão rápido quando podia de seu pai e avó, assim como das tarefas que era obrigada a cumprir, em troca de quase nenhum salário. O cigarro ainda girava entre os dedos, Pita quase podia sentir o cheiro característico da fumaça, ela se imaginou com um cigarro entre os lábios e meio que sorriu à ideia. Mas era tão má assim? Ela balançou a cabeça. De repente, uma mão com um isqueiro aceso diferente do seu surgiu à frente. A chama era brilhante e atraente. Um gritinho saiu de sua boca e ela se levantou rapidamente. Tentou não perder o equilíbrio, com alguma falta de sucesso e agarrou-se a primeira camisa que enxergou. A dona; uma garota de cabelos curtos e pretos como a escuridão estava presente.
- Desculpe, eu... - Pita tentou sorrir. Não sabia se seria simpática ou se a mandava embora, sentiu o rosto vermelho. Ela era da sua idade e parecia muito mais divertida do que Pita. Ela, ao menos, sabia como ascender um isqueiro. Soltou de pressa sua camiseta e fitou aqueles olhos que pareceram tão atraentes. Pita molhou os lábios enquanto se afastava um pouco, incomodada com a falta de distância entre aqueles dois corpos. - Porque não deveria? - Disse, desconfiada. Ela deveria ter perguntado? Ficou com mais vergonha ainda por ter dito, talvez ela fosse responder que com aquele jeito sem graça, ficaria ainda pior com um cigarro nos lábios. Pita suspirou, por fim, esperando que a nova garota não a fizesse chorar pela terceira vez no dia, como seu pai.
Só queria fazer uma graça, por que porra tinha que acabar quase em um desastre? Num primeiro momento, um segundo se quer, franzi o cenho em desaprovação enquanto a garota me puxava pela blusa, mas então, comecei a abrir um sorriso relativamente malicioso. Não é que era ainda mais bela tão de perto como estava?! - Devia te processar por atentado contra minha integridade física?! - Sem tirar o ar de riso que agora possuía no rosto, reparei que minhas mãos haviam parado instintivamente na cintura da rapariga; o isqueiro jazia solitário no chão, com aquela pequena confusão ele fora esquecido no ar e lembrado pela gravidade, então, num ato de graça, o objeto de estudo do senhor Newton trouxera a prata em direção ao chão. Welcome to a new kind of tension, all across the alienation, where everything isn't meant okaay Olhos nos olhos e os joelhos fizeram "crack" quando foram flexionados. Precisava recuperar meu objeto de poder do chão e assim se fez. Abaixei-me, toquei a prata fria e então levantei a cabeça, ouvindo a pergunta da garota. - Porque só vai acabar com o teu peito e a sua boca vai ficar cheirando e com gosto de cigarro, fora sua garganta que vai ficar sensível e vai provavelmente perder o fôlego com o tempo - Quando me levantei, não consegui ser muito discreta; as pernas finas, a cintura, os seios; bem, foram alvos de meus olhos, para por fim, voltar a olhar a loira que ainda não sabia o nome, como se aquela fosse uma conversa rotineira. - Nunca fez isso antes, sem nome? -
Sentiu-se culpada ao vê-la com aquela expressão no rosto, de desagrado, que rapidamente mudou para um sorriso malicioso. Pita engoliu seco e tentou fazer uma cara zangada, sem muito sucesso, apenas havia conseguido fazer-se de séria. Os olhos azuis infantis passaram pelas roupas da garota.
- Não deveria me processar por um acidente. Ou incidente - Disse rapidamente, tentando manter a expressão. Normalmente sentia certo desconforto em conhecer pessoas novas, ainda em Bristol, uma cidade pacata e relativamente pequena, e naquele instante fora diferente. Pita sentiu alívio, o stress do trabalho indo embora, distraindo a mente com algo que não fosse trabalho ou escola. Não sabia o que dizer para a menina, que parecia saber mais informações sobre o mundo do que ela jamais imaginara existir. Notando o leve cheiro de cigarro, Pita deu um breve sorriso e voltou à expressão de antes, colocando a mão na cintura. Depois de algum tempo das palavras ditas pela garota do despósito, descruzou os braços e voltou-se para ela.
- Você fuma e não tem problemas - Disse ela, erguendo um pouco a cabeça antes de escutar a sua da garota novamente. Nunca havia feito isso antes e não pretendia fazer, embora tivesse vontade. Era como uma vontade de rebelar-se, aquele velho cansaço de normalidade.
- É claro que eu... - Pita pigarreou, desistindo. Sentou-se novamente, balançando os pés. Segundos de silêncio. - Eu nunca fiz isso - Olhou para cima, procurando os olhos da garota que acabara de conhecer.
Os pés levaram o resto do corpo até o lado da garota loira, ao menos assim, poderia ser mais discreta e aguentar a vontade de ser exatamente o oposto. Depois de ouvir cada palavra dita pela moça, lhe furtei da mão o cigarro que antes ela parecia divagar como Shakespeare: Acender ou não acender, eis a questão; óbviamente fora uma versão atualizada de sua grande questão. Depois de colocar o cigarro na boca, olhei para o mesmo enquanto o acendia. Não sabia quanto tempo ficara em silêncio até que terminei de dar o primeiro trago e guardei aquela fumaça tóxica no peito. - Porque fumo pouco desses... prefiro outros mais... medicinais, digamos assim - Com um ar de riso, olhei para a garota com o canto dos olhos com o cigarro seguro no canto da boca, então guardei meu isqueiro e pigarreei, finalmente tirando o fino cilindro da boca. - Quer fazer agora de um jeito diferente? - Tinha idéias, sempre alguma surgia no fim das contas, então por que não colocar em prática e arriscar?!
O coração disparou naquele momento. Ela havia mesmo dito que não fumava... cigarros? Depois de algum tempo ela teve a certeza de que reconhecia aquele outro cheiro de algum lugar. Ela sorriu quase institivamente, um sorriso mais aberto e receptivo. Pita sabia do que se tratava, da forma que ela lhe disse. Nunca havia experimentado sequer um cigarro, seria diferente com maconha? Balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Seria errado e mau e seu pai provavelmente a mataria.
- Agora? - Pita tentou sorrir, mostrar um poco mais de confiança, mas a garota obviamente percebera. Os berros de seu pai ecoaram da cozinha, chamando seu nome pouco depois da garota fazer aquele convite, no qual sabia que teria que recusar.
- ... Allison Morgan! No escritório a-go-ra! Mas onde essa menina... - Os passos daquele calçado de sola dura vieram em direção ao depósito. Pita prendeu a respiração. Aqueles gritos lembraram-na do que já perdera por sempre ser quem seu pai gostaria que ela fosse. Lembrou daqueles planos que fazia a noite, de fugir e fazer faculdade em outro lugar ou simplesmente se afastar do que quer que estivesse perto demais.
- Quero - A palavra contornou-lhe os lábios sem fazer barulho algum. Pita levantou-se rapidamente, escondendo-se atrás de vários caixotes de tomates, puxando a nova garota pelo braço.
Sabia que era questão de tempo, deixar que ela tomasse o espaço que precisava para tomar aquela simples decisão. Palavras com conotação imperativa; lê-se: quem era a fonte daquela voz não passava de alguém mandão pra caralho. Conhecia muito bem aquele tom, na realidade, talvez fosse um pouco pior; quem? Salazar era exatamente assim. Nem ligaria para o que a voz dizia, até que resolvi observar melhor as reações da menina que estava ao meu lado. Ela fora pressionada... sim, algo havia feito com que o julgamento dela se formasse de forma mais ligeira, talvez, a força externa tivesse me ajudado naquele momento que a aura da garota parecia dizer "Não faça isso". Pela forma como a voz masculina se comportava e ela reagira, talvez... ela fosse parente dele, talvez até mesmo filha. Sim, provavelmente agora a garota sem nome tinha um sobrenome; era Morgan. Com um ar de riso no rosto pela forma como ela se escondera e me fizera esconder também. Com os joelhos flexionados e um deles tocando o chão, olhei bem para o fundo dos olhos da loira e sorri de forma travessa, falando num tom de voz sussurrado; estava na cara que ela não queria ser descoberta. - Agora não tem mais volta; enjoy - Sem esperar alguma resposta vindo da menina, traguei o cigarro com demora e para não assustá-la, ou fazê-la se queimar, sem deixar a fumaça escapar, me aproximei o suficiente para contar as pequenas sardas que possuía nas bochechas e fiz. Encostei os lábios nos dela e esperando que ela os deixasse abertos o suficiente para que deixasse a fumaça avançar.
A garota, cuja nem o nome Pita saberia dizer qual era, aproximou-se de seu rosto, após aquelas palavras. Tão próximas, Pita primeiramente afastou-se de vagar, muito pouco, até perceber que não se tratava de um beijo e sim, como prometido, de uma forma diferente de fazer o mesmo. Pita tomou fôlego e soltou o ar dos pulmões antes de encostar a boca suavemente na dela, deixando a fumça entrar em seus pulmões. A porta do depósito se abriu violentamente, provavelmente com um chute ou um empurrão forte. Mais passos, Pita encolheu-se mais, chegando mais próximo de onde garota estava. Àquela fumaça delicada, que entrou de um jeito ameno, até gostoso, fez arder o peito. Talvez fosse o nervosismo. Pita segurou o máximo que pôde, seu pai provavelmente a acharia pelo cheiro. Olhou para a garota, de lágrimas nos olhos pelo tempo que estava controlando seus pulmões. Depois do que pareceram séculos, a porta se fechou novamente. Parece que seu pai havia se convencido de que não havia ninguém ali. Mais alguns segundos, Pita soltou a fumaça de vagar, ainda muito próxima da garota de cabelos curtos que não conhecia muito bem, tossiu algumas vezes, deixando as lágrimas escorrerem.
- Desculpe... - Disse, colocando a mão na frente da boca.
Fora somente um roçar de lábios, pura tortura porque queria saber o gosto que eles tinham. A porta aberta sem cuidado, fechada com força. Os passos cada vez mais próximos. Tic tac tic tac. Era questão de tempo até que o provável Morgan pai nos pegasse ali - provavelmente ele não gostaria de ver a filhinha fumando, praticamente beijando uma garota, escondida no depósito. Dez, vinte, trinta segundos. O coração batia rápido, incrível como quando você faz algo que parece ou de fato é errado, a adrenalina te vicia. Fazer algo escondido traz um prazer que nada mais consegue proporcionar. Apesar de não ter nenhuma obrigação para com o homem de boca grande, me sentia induzida pela situação da menina. Fiquei ali então, em silêncio, guardando minha respiração para depois, esperando que ela fizesse alguma coisa. Momento de tensão; mas não deixava de ser bom. - Desculpe... - Outra vez a porta fora fechada e finalmente ela abrira a boca. Pelo que ela se desculpava?! Tirando a expressão de expectativa do rosto e colocando um sorriso em seu lugar, levei a mão livre do cigarro até a que estava na frente de seus lábios, para retirá-la dali. - Shiu... 'tá se desculpando pelo que?! - De forma simplória só fiquei ali a observando, sem reparar que ainda lhe tocava os dedos.
As palavras sairam de sua boca antes que pudesse controlar o que iria dizer. Trazia uma dor no peito, não sabia dizer exatamente o motivo, apenas sentia o crunsh agir em seu estômago, comprimindo-o cada vez mais. Talvez fosse o hábito de pedir desculpas, talvez fosse hábito, àquele costumo imprestável e arruinador. Pita suspirou e encostou-se na parede, fechando os olhos por alguns segundos, sem responder à pergunta da garota. As cenas que passaram em sua mente, ela não pôde explicar. Eram cenas de sua infância, quando beijos na bochecha e aniversários felizes costumavam ser nada mais do que beijos e aniversários, agoram passavam despercebidos, não existiam. Não era de importância suficiente. Sempre fora tão treinada para obedecer, tirar notas boas e ser uma pessoa competente, Às vzes o cansaço tomava conta de si, também. Ao abrir os olhos, observou a garota à sua frente, o cigarro e seu cheiro característico. Por que deveria se segurar? Uma vez na vida, ela queria deixar-se levar pela irresponsabilidade que sabia que tinha dentro de si.
- Por não ser tão... - Engoliu em seco. - Sabe... boa... Nisso. - Pita tentou sorrir. Faria diferente agora. Tomou o cigarro das mãos da menina-sem-nome. Tragou até sentir nos pulmões uma ardência quase incendiária e segurou por vários segundos, até soltar de vagar, desta vez sem lágrimas. - Eu sou boa quando quero - Disse, séria, quase para si mesma, ou para seu pai? - E meu nome é Pita Morgan. Aquele... É meu pai.
Ela realmente parecia ser aquele tipo de garota que fazia o tipo "good girl"; fazia tudo o que tinha de fazer, estudava, trabalhava, ajudava em casa e não era um problema quando o assunto em pauta eram garotos ou pílulas. Quando a menina se recostou na parede, pude ver que por instante ela não estava ali; não, estava num mundo que era só dela, que de fato somente ela conhecia e vivera. Depois de suspirar, me sentei com as costas encostadas num saco de algum tipo de grão. Com as pernas flexionadas e os antebraços apoiados nos joelhos, me esqueci do tempo. Já deveria ter entregue as caixas que estavam no 'caminhão', mas só o que queria fazer era sair daquela rotina de trabalho, todo santo dia passando compras e agora tinha uma oportunidade de fugir daquilo, nem que fosse por alguns minutos. Estava de olhos fechados quando fui levar o cigarro a boca. Antes de encostá-lo nos lábios, esbocei um sorriso e ainda sem abrir os olhos, respondi a menina Morgan. - Quase ninguém é na primeira vez - Roubo. Ela havia pego o cigarro de meus dedos o que me fez sair do mundo em que estava e lhe fitar de forma mais intensa, sem perder o sorriso, na realidade, ele aumentara. Era boa quando queria, gostava de pessoas determinadas. A confirmação de que ela era filha do Morgan, dono do restaurante, entrara, fora processada e ignorada; o que agora me fazia sorrir era saber o nome, nome este que já estava fazendo meu estômago coçar de curiosidade para saber, sem ter a necessidade de perguntar. - Pita... engraçado, Piita, Pii-ta - Ri sozinha fazendo variantes de como entonar o nome da garota, era gostoso de colocar ele para fora.
Pita sorriu mais confiante depois do sorriso da garota, abrindo-se cada vez mais para ela, a cada segundo que segurava a fumaça dentro de si. Ela era bonita, a garota. Estava rindo. Rindo? Pensara Pita. De seu nome. Realmente era incomum, o que seu pai tinha na cabeça no final da adolescência era um mistério dos valiosos, percebeu. Ainda sim, gostava de seu nome, nunca fora confundida com ninguém nas classes, ou chamada por outro nome. Ela riu ao som da voz da menina-ainda-sem-nome.
- E você provavelmente tem um nome - Disse, revirando os olhos com a obviedade do assunto. - Aposto que mais fascinante que o meu - Falou, olhando para os olhos da garota, contendo a vontade de morder o lábio inferior, desceu seu rosto até parar na sua boca, depois a encontrar o cigarro em suas mãos.
Até onde eu sabia, conhecia aquele tipo de olhar, conhecia o sentimento de reparar sem saber que pela primeira vez estava reparando. Confuso. Fingi não reparar onde os olhos dela haviam parado por alguns segundos. Talvez ela já tivesse tido alguma outra experiencia com uma outra garota, mas tinha certeza que não era muito extensa. Coloquei os joelhos no chão e me pus à frente da menina, com uma das mãos apoiada em minha coxa, segurei com a livre o pulso da menina. Não tinha força, só um pouco de firmeza. - Posso ter muitos nomes, mas só um na carteira de identidade; qual deles quer ouvir?! - Com um ar até brincalhão, ri pelo nariz e depois de olhar nos olhos da garota, trouxe sua mão para mais pero e traguei o cigarro que se encontrava na sua mão, dali mesmo, sem se quer retirá-lo de seus dedos. Logo depois lhe soltei o pulso e encolhi os ombros, voltando a minha posição anterior, encostada no saco. se grãos. - Mas ele não é tão fascinante assim, existem outras com o mesmo nome que o meu, já o seu... - Pisquei com um dos olhos, sentindo a fumaça que parecia ficar impregnada nos pulmões e ia saindo aos poucos, lhe toquei o joelho, dando um pequeno empurrãozinho. - É único
O jeito com que ela torcia as palavras à seu favor, fazendo-a rir, sentir como se nada mais fosse tão digno de preocupação ou importante o bastante para ter sua atenção voltado àquele assunto. Assim que a mão livre da garota tocou-lhe o pulso, Pita encolheu-se um pouco, intimidada talvez pela proximidade, ainda que achasse a ditância pequena, às vezes parecia grande.
- Posso ouvir todos? - Levantei uma sobrancelha, sorrindo. O cigarro nas mãos dela, não atreveu-se a tragar outra vez. Havia certo medo na coragem de Pita, talvez não fosse o suficiente para fazê-la mudar totalmente de ideia. Embora já tenha feito em um primeiro momento, como seriam as outras vezes? Teriam... Outras vezes? Pita mordeu o lábio inferior com vontade, pouco depois da menina soltar seu pulso. Sorriu-lhe ao ouvir as doces palavras que sairam de sua boca, ainda que parecessem impregnadas de fumaça, eram doces como mel. Sem graça, Pita abaixou o rosto, ainda mostrando os dentes de forma alegre.
Levantei as mãos na altura dos ombros e levantei juntamente as sobrancelhas. - Você ainda não tem esse poder - Depois de rir baixo e de forma rouca, pigarreei e passei as mãos pelos cabelos curtos continuando o caminho até atrás de minha nuca. Fiquei a observar a garota por um tempo, como se pudesse ler o que se passava por debaixo daquelas madeixas loiras, pena que não era possível, porque estava quase a sete palmos, de curiosidade, por dentro. Com uma expressão tranquila no rosto, estendi uma das mãos em direção da garota. - Já que estamos nos apresentando... Volkova, Erika Volkova, e não diga prazer, porque ele é todo meu - Um riso curto se fez; como as vezes conseguia ser idiota perto de alguém. O trocadilho era infâme, mas quem se importa?! Ela?! Acho que não se importaria demais... talvez seu pai, mas quem era o velho mesmo?!
Erika. Um nome bonito para um rosto bonito. O sorriso que trazia nos lábios refletiu em seu rosto, trazendo-lhe à vida de volta. Havia curiosidade e desejo em tudo que ela dizia, a moralidade estava por baixo dos lençóis e quem se importava? Pita estava finalmente entendendo o que o destino quis dizer quando colocou aquela garota no depósito do restaurante hoje. Precisava ver além de dois palmos a sua frente, enxergar mais do que os sermões de seu pai, os ensinamentos de sua mãe e obviamente, criar os próprios limites e princípios. Erika estava ali agora, parecia importar mais do que tudo, àquela hora no depósito, rindo, com um cigarro na mão. Quem era ela mesmo? Oh. Pita Morgan. A nova, Pita. Ela gostava do que ouvia da menina de cabelos curtos, do som da sua voz, da pacificidade da conversa, daquele ritmo.
- Erika Volkova - Pita deu de ombros mentalmente e aproximou-se para dar um selinho na menina à sua frente. Os lábios se encostaram, de vagar e demoradamente, encaixando-os perfeitamente num movimento suave. A menina dos cabelos loiros deixou-os cairem em ondas nos braços de Erika e sem dizer uma palavra, virou-se, saindo pela porta do depósito.
Lábios ligeiros e macios; é, não havia me enganado quanto a textura que eles tinham quando a vira num primeiro momento. Parecia brincadeira, não era?! Talvez fosse, talvez fosse só uma boa recompensa por ser uma boa pessoa... Okay, corta essa, só estava tendo sorte e é isso. Do que estou falando?! Bem, tentando encontrar alguma explicação para ela ter me beijado, se até aquele momento ela não havia se mostrado aquecida a realmente ter um contato mais próximo do que aqueles palmos de distância que tínhamos uma da outra. Enfim, não interessam os motivos, só que aconteceu e ela estava indo embora. Sim, era só um selo, mas por que não almejar mais do que isso?! E aquela chance estava se mandando do depósito. Em dois segundos estava atrás dela lhe segurando a mão; não, não, meu ego sempre fora maior que minhas vontades, então não haveria de pedir um re-play da iniciativa que ela tinha tomado; só precisava de mais um diálogo e este era o tempo suficiente. Suficiente para que?! Tivesse o que queria. - Hey, espera... preciso de sua ajuda -O cigarro jazia no chão, morto pelo fogo. Sem me fazer, cheguei o mais próximo da garota que podia, lhe soltando o braço. - Preciso que alguém assine p'ra que eu possa descarregar a encomenda- As palavras saíram arrastadas e com um toque de marra, fazer o que?! Ninguém é de ferro, logo todos somos imperfeitos...
Pita não queria ouvir o que ela tinha a dizer do beijo. E se ela não dissesse nada? Aquele significado oculto. Pita nunca havia beijado uma garota antes, era estranho dizer como fora igual aos outros, exceto pelo sentimento recente no peito, que não tinha nome ainda. Uma mão lhe puxou pelo braço, era ela. Erika havia ignorado o beijo, fora tão ruim? Percebeu o rosto queimar, ainda que estivesse rezando para todos os deuses para não corar naquela hora. Pita virou, séria, queria ou não queria um comentário? Sentiu-se mal de repente, não esboçou sorriso algum desta vez. Apenas tirou uma caneta delicadamente do bolso e assinou o papel que Erika trazia nas mãos.
- Obrigada - Disse, fitando a mão que ainda lhe segurava. Agora as dúvidas eram maiores do que antes.
Um papel assina, nada de sorriso no rosto. Ela ficara brava?! Importava, mas ao mesmo tempo não, só queria, precisava dar mais um recado a ela. O papel fora guardado no bolso traseiro da calça e então finalmente lhe soltei o braço. "Obrigada". Pleo que? Não sabia, Provavelmente ela não gostara do beijo, ou seja lá qual fosse o motivo pelo qual ela estava fugindo dali, só o que sempre tinha dentro de mim, era que não ia recuar; quem perde uma oportunidade tende a perder mais uma, duas, três; todas as que a vida lhe oferece, desde que havia colocado aquilo na cabeça, não fazia mais as coisas pensando no futuro, só no que estava sentindo no presente, como ali, naquele instante. Sem esperar muito, não querendo dar tempo suficiente para que ela pudesse fugir, lhe toquei entre o rosto e o pescoço antes de lhe beijar outra vez. Um beijo curto, intenso e que não queria ser o único. Só queria dizer o que não conseguia com palavras, sempre fora assim, palavras eram complicadas as vezes, mais fácil agir de alguma forma. Antes que ela pudesse recuar, o fiz e sentindo a boca seca, passei a língua pelos lábios e sorri de forma tranquila. Viesse um sorriso ou um tapa, não importava. - Espero te ver outro dia por aqui... Pita-
Nunca pudera imaginar o que viria a seguir, depois de sua assinatura. Pensara tanto naqueles poucos segundos sobre o beijo que ela não havia gostado, supostamente. Até sentir a mesma boca na sua outra vez, um pouco diferente, agora demonstrando um significado que Pita não queria entender. As mãos de Erika pararam entre seu pescoço e seu rosto, de forma quase carinhosa, gostosa. Um beijo apressado, deixando de lado as inseguranças e incertezas. Pita correspondeu enquanto pôde, depois para buscar o fôlego. Então veio um sorriso, como quem dizia um olá faceiro, que essa não era a última vez.
Sem dizer mais nada, só ainda com a impressão dos lábios dela nos meus, lhe sorri e saí dali; agora era hora de descarregar o que tinha de descarregar.É, as vezes a vida traz surpresas, como em alguma daquelas séries de televisão americana, todo fim precisa de uma frase marcante, essa é a minha antes de outra vez, voltar para o bendito armazém do tio Salazar; mas voltar dessa vez com um sorriso satisfeito no rosto, não é que pela primeira vez o maldito emprego em seu mercado havia me trazido lucro?!
- Preciso atender a fila! Porque você não vai até o depósito? - Disse ela à ajudante, chamada Melany. Ela estava ali há alguns meses e seu pai a mimava como se fosse sua filha, quando na verdade o trabalho sujo ficava para quem não o merecia. Melany deu um sorriso convencido.
- Porque ele mandou você - Ela deu quatro passos lentos e charmosos em direção ao balcão do caixa, enquanto Pita saía. Ela se pôs em seu lugar e logo começou a dar risos forjados e conversar com os clientes que passariam o cartão de crédito na máquina. Pita desceu algumas escadas para o patamar de baixo, onde haviam mais mesas. Seu pai fora recentemente obrigado a reformar o restaurante, dando espaço para mais cinquenta mesas, devido a lotação nos finais de semana, além de dar espaço para uma mini-lanchonete que era como uma padaria, onde Pita atendia à tarde, depois de fechar o caixa no almoço. Seguiu para as portas dos fundos, onde se encontrava a cozinha. Sua avó estava sentada em um dos cantos, supervisionando a lavagem da louça e reclamando baixinho.
- PITA! - Ela apenas se deu o trabalho de levantar o olhar. - Volte logo aqui e lave aquele monte antes de ir abrir o forno para pegar os pães. E rápido. Se seu pai vir mas uma forma com todos os pães torrados, não vou querer estar aqui para ver! - Sua voz foi grave, urgente. Ela revirou os olhos e voltou ao seu trabalho, um crochê mal feito em linha bege. Os ombros de Pita estavam carregados, tantas coisas com que se preocupar, queria apenas poder fugir dali, nem se fosse para sentar no chão do banheiro e respirar um pouco. A pilha de louça era enorme, deviam ter mais de duzentos pratos ali! Pita terminou tudo com a maior rapidez que conseguiu, sua avó já havia ido embora, junto com as outras cozinheiras.
Virou-se então, com os cabelos presos num coque desajeitado e com o avental molhado e seguiu para o forno, onde os pães desprendiam um cheiro delicioso. Com uma das luvas de borracha, ela retirou a forma a tempo, os pães estavam dourados, prontos para a vitrine da lanchonete. E então suspirou, quando voltou a cozinha, não lembrava-se mais do depósito. Seu pai havia dado a ordem, em uma hora haveria de pegar caixotes na parte de trás do restaurante, mas para Pita, o serviço estava terminado. Sem pensar, atravessou a cozinha e roubou um cigarro acompanhado de um isqueiro de seu pai, ele fumava como louco. Quando abriu a porta, tudo era escuro, havia um feixe de luz vindo do portão de aço enorme. Entre os caixotes de alimentos, Pita sentou-se, balançando os pés em uma das plataformas onde os caminhões descarregavam. Obvimanete, de costas para a porta do depósito, para ficar de olho na porta da cozinha. Receberia uma bronca se seu pai a visse parada em horário de expediente. Ela girou o cigarro entre os dedos, não sabia se deveria. Talvez ele descobrisse pelo cheiro e então, ela estaria morta. Pita suspirou, os cabelos encaracolados e dourados caindo um pouco acima da cintura. Ela nem saberia como acender o isqueiro.
- Por que ainda liga pra mim?! - - É só você mudar de idéia, seu pai e eu deixaríamos você voltar pra casa, nós queremos que volte, você só precisa aprender alguns valores, seu pai tem conversado com seu tio, pra saber se você está melhorando, se está voltando ao normal ou se ainda continua.. - - O que?! Continua o que? Doente? Isso não é doença, mãe! - - Filha, isso não é de Deus, se você fica perto demais de pessoas assim, fica como elas, está só faltando reza na sua vida e... – - Chega! Eu tenho que ir, logo Salazar vai querer me manter até mais tarde na merda da venda só por ter ficado falando no telefone, tchau - TU TU TU TU. Segunda feira, meio da tarde; mercado cheio e só eu de caixa. Era pedir para que Salazar, meu tio, quisesse me enforcar e aumentar meu expediente, como se eu tivesse feito alguma pirraça. Inferno. Preferia mil vezes trabalhar em qualquer outro lugar, mas tinha de ser ali, afinal, como meu pai frisava até maior idade eu ainda era responsabilidade deles; até ser maior de idade, eu deveria morar sob o teto deles, seguir suas regras, manias e idéias. Engraçado que não era sob o teto dele que estava morando. Ironia. Desde que fora mandada para viver ali, com meu tio Salazar, não tinha liberdade para ir trabalhar em qualquer outro lugar que não fosse seu próprio negócio; motivos? Deveria pagar minha estadia lá de alguma maneira, as vezes chegava a cogitar a idéia de sair de lá e trabalhar em outro lugar, mas todo o dinheiro que ganhasse, ele haveria de comer em aluguel, alimentação, água, luz, o inferno que fosse só p'ra me deixar dura. Bem, o negócio então era dançar conforme a música até o momento em que eu pudesse sair dali e ter minha própria vida, ou me emputecesse de vez a ponto de preferir não ter um puto tostão no bolso, a continuar aguentando as manias malucas daquele excêntrico; aquilo sim era doença... doença mental! - O que estava fazendo no telefone?! - A fila aumentava e ele chegara ali só para me deixar nervosa; pena que tudo o que ele dizia, entrava por um ouvido e saia pelo outro... na maioria das vezes. - Não interessa. - As compras iam sendo passadas uma a uma; uma a uma iam sendo registradas; uma a uma depois iam sendo empacotadas por minhas próprias mãos. - Menina insolente! Quando terminar com essa fila venha até meu escritório, com urgência, se te pegar fora do serviço é do seu salário que vou descontar até que fique me devendo! - Com um sorriso forçado e uma breve continência, torci o nariz numa expressão de desagrado quando ele fora embora. O que ele haveria de querer de mim?! Inferno. Só o que poderia fazer era terminar com aquela fila de empregadas e velhos que estavam indo lá para comprar verduras para semana ou o dia seguinte. Foi o que fiz. Meia hora depois e de um cartão de crédito recusado, caminhei sem pressa até o escritório de meu tio que ficava aos fundos da venda; morávamos a uma quadra dali, logo era um estabelecimento puramente comercial, mas sempre quem ficava para fechar aquele lugar era eu, infortúnio. - Então estamos conversados, espero que goste de trabalhar conosco, estávamos precisando de alguém mais eficiente lá na frente - Estava para abrir a maçaneta da porta quando ouvi a voz cantada de meu tio. Lá na frente?! Ele estava contratando alguém? Será que ele iria demitir a mim e mandar que voltasse para casa? Talvez fosse bom, voltar para minha cidade, não necessariamente voltar para casa, mas ao menos para os poucos amigos que havia deixado lá. - Muito obrigada Senhor Volkova, não vai se arrepender – Então a porta se abriu! Estava em meio a devaneios e esperanças, até que vi a cara dos dois seres humanos que se encontravam lá dentro. Um era alto, relativamente magro e de olhos azuis, enquanto o outro era praticamente da minha altura, loiro, magricelo e com luzes no cabelo; na realidade, o segundo ser, para ser mais precisa, era uma mulher, de seus trinta anos, que provavelmente achava que ainda tinha vinte. Com uma expressão confusa, olhando de um para outro, recebi um afastão do braço de meu tio, para que a moça pudesse passar pela porta. - Essa é minha sobrinha, vai ficar no lugar dela, pode ir para o caixa, amanhã ela vai te entregar seu avental. Sempre que precisar de alguma coisa, é só pedir para a Erika aqui, se ela não atender, é só vir falar comigo - Toda a esperança que tinha no coração, fora embora numa questão de segundos. Ela iria tomar meu lugar, com certeza haveria de ter problemas com a oxigenada e ainda não tinha certeza do que faria ali naquele lugar; será que ele iria me por para limpar o chão então?! - Pode deixar que vamos nos dar bem – Será que ela estava sendo simpática?! - Não é, mocinha?! – Os olhos dela não mentiam; era pura falsidade. Inferno, inferno, inferno! - Uhum - - Responda direito, Erika, educação é tudo debaixo de meu teto - O olhar mortal que Salazar havia me dado, só me fez ter vontade de enfiar a mão no meio das pernas dele e lhe arrancar os ovinhos para fazê-los mexidos e dar a ele de comer no café da manhã. - Humhum, vamos sim nos dar bem - Esboçando um sorriso forçado e sem dentes, logo revirei os olhos quando os dois ainda deram alguns risinhos e a garota fora tomar meu lugar no caixa. Merlin, me ajude. - Entre logo, como você é lenta! - Sem responder nada entrei no lugar e me joguei na cadeira em frente a mesa de meu tio, após ele o fazer primeiro. Apesar de não estar com a coluna no lugar, a curiosidade foi maior, antes que ele pudesse terminar de ajeitar os papéis, passei os olhos por cima dos contratos, os olhando de longe. - O que?! Ela vai fazer o mesmo que eu faço e vai receber mais por isso?! Qual é o seu problema, hein?! Não estamos mais no século dezoito não, só pra você saber - Havia me expressado alto demais, não é?! - O que você disse? Está morando na minha casa sem pagar nada, te dou emprego, comida e um colchão pra dormir e ainda reclama?! Seu pai disse mesmo, menina insolente e estragada. Só estou com você por pena do meu irmão - Engolindo a língua e os punhos para que não voasse na cara branquela de meu tio, olhei para o lado respirando fundo tentando controlar meus nervos. - Certo - - Só por isso deveria te descontar do salário, mas como sou uma pessoas boa, não vou. Agora, só te chamei aqui para dizer que não vai mais trabalhar no caixa, contratei ontem e hoje mais duas para fazerem isso, John se mudou para Pristol, agora você fica encarregada do estoque das entregas e da limpeza nos fins de semana, a velha Berkins está me custando demais, assim não preciso pegar ela mais dois dias para limpar esse lugar - Um faz tudo; tinha como ficar pior?! - E meu salário, como fica? - - Vá até os fundos, tem de fazer uma entrega com o caminhão para o Restaurante dos Morgan, já está carregado, John deixou pronto antes de viajar. - Era muito difícil responder uma pergunta simples? - E meu salário? E por que o John não foi entregar? - - Se quer mesmo saber... - Os olhos pequeninos se ergueram pro cima das lentes dos óculos e os braços se apoiaram na mesa. Ele iria falar sobre meu salário. - Falei a ele que não precisava, quem fosse entrar no lugar dele deveria aprender sozinho como faz - Nada de falar sobre meu salário. Inferno de homem. - Certo... - "apesar de te achar um grandessíssimo filho da puta"- Pode me dizer quanto vou ganhar com tudo isso agora?! - - Hum... quanto ao aumento do seu salário; acrescentei dez libras - Sem dizer mais nada, me levantei e dei as costas para sair logo dali. Antes de finalmente me ver livre daquele homem ganancioso e asqueroso, ainda ouvi um "Não bata a porta"; pena que já havia batido, não é?! Sem dizer nada fui para os fundos do pequeno mercado e lá estava a caminhonete de entregas. Bem, ao menos iria poder voltar a dirigir. Por uma liminar da justiça, há dois anos podia dirigir por conta dos afazeres domésticos e trabalhistas. Enfim, a chave na ignição, novo setor; é, ao menos nas entregas poderia me ver livre daquela cara feia de Salazar. Depois de dez minutos dirigindo e finalmente podendo fumar meu primeiro cigarro no dia, cheguei em meu destino, pena, pena mesmo que era uma azarada de carta maior. Quando cheguei lá para descarregar, me disseram que alguém viria assinar a entrega e me indicar onde colocar a encomenda. Dez, quinze, vinte minutos depois e nada. Já estava ficando puta da cara de ter de esperar, então decidi entrar na porta que provavelmente daria para o depósito do restaurante. Joguei a bituca no chão, retirei meu avental - que não saiba porque ainda vestia; John não usava avental quando estava em meu lugar - e fui entrar de mansinho no lugar. Quando iria bater palmas para ver se chamava a atenção de alguém, eis que vi alguém numa dúvida, muito cruel. Merlin, ela era linda! Uma garota, loira, dos cabelos encaracolados, iguais aos de anjos, daqueles que você vê nas igrejas, estava com um cigarro na mão. Ainda caminhando de leve, me aproximei de forma sorrateira da menina, apalpando um dos bolsos da calça com a mão até encontrar meu isqueiro. Quando cheguei ao seu lado, não sabia se ela havia notado minha presença, ou não, ascendi o isqueiro e coloquei a chama na sua frente. - Acho que você não deveria fazer isso -
Toda a agitação ia indo embora e o sono ia atingindo-a. Planejava ir à algma praça depois do trabalho, queria livrar-se tão rápido quando podia de seu pai e avó, assim como das tarefas que era obrigada a cumprir, em troca de quase nenhum salário. O cigarro ainda girava entre os dedos, Pita quase podia sentir o cheiro característico da fumaça, ela se imaginou com um cigarro entre os lábios e meio que sorriu à ideia. Mas era tão má assim? Ela balançou a cabeça. De repente, uma mão com um isqueiro aceso diferente do seu surgiu à frente. A chama era brilhante e atraente. Um gritinho saiu de sua boca e ela se levantou rapidamente. Tentou não perder o equilíbrio, com alguma falta de sucesso e agarrou-se a primeira camisa que enxergou. A dona; uma garota de cabelos curtos e pretos como a escuridão estava presente.
- Desculpe, eu... - Pita tentou sorrir. Não sabia se seria simpática ou se a mandava embora, sentiu o rosto vermelho. Ela era da sua idade e parecia muito mais divertida do que Pita. Ela, ao menos, sabia como ascender um isqueiro. Soltou de pressa sua camiseta e fitou aqueles olhos que pareceram tão atraentes. Pita molhou os lábios enquanto se afastava um pouco, incomodada com a falta de distância entre aqueles dois corpos. - Porque não deveria? - Disse, desconfiada. Ela deveria ter perguntado? Ficou com mais vergonha ainda por ter dito, talvez ela fosse responder que com aquele jeito sem graça, ficaria ainda pior com um cigarro nos lábios. Pita suspirou, por fim, esperando que a nova garota não a fizesse chorar pela terceira vez no dia, como seu pai.
Só queria fazer uma graça, por que porra tinha que acabar quase em um desastre? Num primeiro momento, um segundo se quer, franzi o cenho em desaprovação enquanto a garota me puxava pela blusa, mas então, comecei a abrir um sorriso relativamente malicioso. Não é que era ainda mais bela tão de perto como estava?! - Devia te processar por atentado contra minha integridade física?! - Sem tirar o ar de riso que agora possuía no rosto, reparei que minhas mãos haviam parado instintivamente na cintura da rapariga; o isqueiro jazia solitário no chão, com aquela pequena confusão ele fora esquecido no ar e lembrado pela gravidade, então, num ato de graça, o objeto de estudo do senhor Newton trouxera a prata em direção ao chão. Welcome to a new kind of tension, all across the alienation, where everything isn't meant okaay Olhos nos olhos e os joelhos fizeram "crack" quando foram flexionados. Precisava recuperar meu objeto de poder do chão e assim se fez. Abaixei-me, toquei a prata fria e então levantei a cabeça, ouvindo a pergunta da garota. - Porque só vai acabar com o teu peito e a sua boca vai ficar cheirando e com gosto de cigarro, fora sua garganta que vai ficar sensível e vai provavelmente perder o fôlego com o tempo - Quando me levantei, não consegui ser muito discreta; as pernas finas, a cintura, os seios; bem, foram alvos de meus olhos, para por fim, voltar a olhar a loira que ainda não sabia o nome, como se aquela fosse uma conversa rotineira. - Nunca fez isso antes, sem nome? -
Sentiu-se culpada ao vê-la com aquela expressão no rosto, de desagrado, que rapidamente mudou para um sorriso malicioso. Pita engoliu seco e tentou fazer uma cara zangada, sem muito sucesso, apenas havia conseguido fazer-se de séria. Os olhos azuis infantis passaram pelas roupas da garota.
- Não deveria me processar por um acidente. Ou incidente - Disse rapidamente, tentando manter a expressão. Normalmente sentia certo desconforto em conhecer pessoas novas, ainda em Bristol, uma cidade pacata e relativamente pequena, e naquele instante fora diferente. Pita sentiu alívio, o stress do trabalho indo embora, distraindo a mente com algo que não fosse trabalho ou escola. Não sabia o que dizer para a menina, que parecia saber mais informações sobre o mundo do que ela jamais imaginara existir. Notando o leve cheiro de cigarro, Pita deu um breve sorriso e voltou à expressão de antes, colocando a mão na cintura. Depois de algum tempo das palavras ditas pela garota do despósito, descruzou os braços e voltou-se para ela.
- Você fuma e não tem problemas - Disse ela, erguendo um pouco a cabeça antes de escutar a sua da garota novamente. Nunca havia feito isso antes e não pretendia fazer, embora tivesse vontade. Era como uma vontade de rebelar-se, aquele velho cansaço de normalidade.
- É claro que eu... - Pita pigarreou, desistindo. Sentou-se novamente, balançando os pés. Segundos de silêncio. - Eu nunca fiz isso - Olhou para cima, procurando os olhos da garota que acabara de conhecer.
Os pés levaram o resto do corpo até o lado da garota loira, ao menos assim, poderia ser mais discreta e aguentar a vontade de ser exatamente o oposto. Depois de ouvir cada palavra dita pela moça, lhe furtei da mão o cigarro que antes ela parecia divagar como Shakespeare: Acender ou não acender, eis a questão; óbviamente fora uma versão atualizada de sua grande questão. Depois de colocar o cigarro na boca, olhei para o mesmo enquanto o acendia. Não sabia quanto tempo ficara em silêncio até que terminei de dar o primeiro trago e guardei aquela fumaça tóxica no peito. - Porque fumo pouco desses... prefiro outros mais... medicinais, digamos assim - Com um ar de riso, olhei para a garota com o canto dos olhos com o cigarro seguro no canto da boca, então guardei meu isqueiro e pigarreei, finalmente tirando o fino cilindro da boca. - Quer fazer agora de um jeito diferente? - Tinha idéias, sempre alguma surgia no fim das contas, então por que não colocar em prática e arriscar?!
O coração disparou naquele momento. Ela havia mesmo dito que não fumava... cigarros? Depois de algum tempo ela teve a certeza de que reconhecia aquele outro cheiro de algum lugar. Ela sorriu quase institivamente, um sorriso mais aberto e receptivo. Pita sabia do que se tratava, da forma que ela lhe disse. Nunca havia experimentado sequer um cigarro, seria diferente com maconha? Balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Seria errado e mau e seu pai provavelmente a mataria.
- Agora? - Pita tentou sorrir, mostrar um poco mais de confiança, mas a garota obviamente percebera. Os berros de seu pai ecoaram da cozinha, chamando seu nome pouco depois da garota fazer aquele convite, no qual sabia que teria que recusar.
- ... Allison Morgan! No escritório a-go-ra! Mas onde essa menina... - Os passos daquele calçado de sola dura vieram em direção ao depósito. Pita prendeu a respiração. Aqueles gritos lembraram-na do que já perdera por sempre ser quem seu pai gostaria que ela fosse. Lembrou daqueles planos que fazia a noite, de fugir e fazer faculdade em outro lugar ou simplesmente se afastar do que quer que estivesse perto demais.
- Quero - A palavra contornou-lhe os lábios sem fazer barulho algum. Pita levantou-se rapidamente, escondendo-se atrás de vários caixotes de tomates, puxando a nova garota pelo braço.
Sabia que era questão de tempo, deixar que ela tomasse o espaço que precisava para tomar aquela simples decisão. Palavras com conotação imperativa; lê-se: quem era a fonte daquela voz não passava de alguém mandão pra caralho. Conhecia muito bem aquele tom, na realidade, talvez fosse um pouco pior; quem? Salazar era exatamente assim. Nem ligaria para o que a voz dizia, até que resolvi observar melhor as reações da menina que estava ao meu lado. Ela fora pressionada... sim, algo havia feito com que o julgamento dela se formasse de forma mais ligeira, talvez, a força externa tivesse me ajudado naquele momento que a aura da garota parecia dizer "Não faça isso". Pela forma como a voz masculina se comportava e ela reagira, talvez... ela fosse parente dele, talvez até mesmo filha. Sim, provavelmente agora a garota sem nome tinha um sobrenome; era Morgan. Com um ar de riso no rosto pela forma como ela se escondera e me fizera esconder também. Com os joelhos flexionados e um deles tocando o chão, olhei bem para o fundo dos olhos da loira e sorri de forma travessa, falando num tom de voz sussurrado; estava na cara que ela não queria ser descoberta. - Agora não tem mais volta; enjoy - Sem esperar alguma resposta vindo da menina, traguei o cigarro com demora e para não assustá-la, ou fazê-la se queimar, sem deixar a fumaça escapar, me aproximei o suficiente para contar as pequenas sardas que possuía nas bochechas e fiz. Encostei os lábios nos dela e esperando que ela os deixasse abertos o suficiente para que deixasse a fumaça avançar.
A garota, cuja nem o nome Pita saberia dizer qual era, aproximou-se de seu rosto, após aquelas palavras. Tão próximas, Pita primeiramente afastou-se de vagar, muito pouco, até perceber que não se tratava de um beijo e sim, como prometido, de uma forma diferente de fazer o mesmo. Pita tomou fôlego e soltou o ar dos pulmões antes de encostar a boca suavemente na dela, deixando a fumça entrar em seus pulmões. A porta do depósito se abriu violentamente, provavelmente com um chute ou um empurrão forte. Mais passos, Pita encolheu-se mais, chegando mais próximo de onde garota estava. Àquela fumaça delicada, que entrou de um jeito ameno, até gostoso, fez arder o peito. Talvez fosse o nervosismo. Pita segurou o máximo que pôde, seu pai provavelmente a acharia pelo cheiro. Olhou para a garota, de lágrimas nos olhos pelo tempo que estava controlando seus pulmões. Depois do que pareceram séculos, a porta se fechou novamente. Parece que seu pai havia se convencido de que não havia ninguém ali. Mais alguns segundos, Pita soltou a fumaça de vagar, ainda muito próxima da garota de cabelos curtos que não conhecia muito bem, tossiu algumas vezes, deixando as lágrimas escorrerem.
- Desculpe... - Disse, colocando a mão na frente da boca.
Fora somente um roçar de lábios, pura tortura porque queria saber o gosto que eles tinham. A porta aberta sem cuidado, fechada com força. Os passos cada vez mais próximos. Tic tac tic tac. Era questão de tempo até que o provável Morgan pai nos pegasse ali - provavelmente ele não gostaria de ver a filhinha fumando, praticamente beijando uma garota, escondida no depósito. Dez, vinte, trinta segundos. O coração batia rápido, incrível como quando você faz algo que parece ou de fato é errado, a adrenalina te vicia. Fazer algo escondido traz um prazer que nada mais consegue proporcionar. Apesar de não ter nenhuma obrigação para com o homem de boca grande, me sentia induzida pela situação da menina. Fiquei ali então, em silêncio, guardando minha respiração para depois, esperando que ela fizesse alguma coisa. Momento de tensão; mas não deixava de ser bom. - Desculpe... - Outra vez a porta fora fechada e finalmente ela abrira a boca. Pelo que ela se desculpava?! Tirando a expressão de expectativa do rosto e colocando um sorriso em seu lugar, levei a mão livre do cigarro até a que estava na frente de seus lábios, para retirá-la dali. - Shiu... 'tá se desculpando pelo que?! - De forma simplória só fiquei ali a observando, sem reparar que ainda lhe tocava os dedos.
As palavras sairam de sua boca antes que pudesse controlar o que iria dizer. Trazia uma dor no peito, não sabia dizer exatamente o motivo, apenas sentia o crunsh agir em seu estômago, comprimindo-o cada vez mais. Talvez fosse o hábito de pedir desculpas, talvez fosse hábito, àquele costumo imprestável e arruinador. Pita suspirou e encostou-se na parede, fechando os olhos por alguns segundos, sem responder à pergunta da garota. As cenas que passaram em sua mente, ela não pôde explicar. Eram cenas de sua infância, quando beijos na bochecha e aniversários felizes costumavam ser nada mais do que beijos e aniversários, agoram passavam despercebidos, não existiam. Não era de importância suficiente. Sempre fora tão treinada para obedecer, tirar notas boas e ser uma pessoa competente, Às vzes o cansaço tomava conta de si, também. Ao abrir os olhos, observou a garota à sua frente, o cigarro e seu cheiro característico. Por que deveria se segurar? Uma vez na vida, ela queria deixar-se levar pela irresponsabilidade que sabia que tinha dentro de si.
- Por não ser tão... - Engoliu em seco. - Sabe... boa... Nisso. - Pita tentou sorrir. Faria diferente agora. Tomou o cigarro das mãos da menina-sem-nome. Tragou até sentir nos pulmões uma ardência quase incendiária e segurou por vários segundos, até soltar de vagar, desta vez sem lágrimas. - Eu sou boa quando quero - Disse, séria, quase para si mesma, ou para seu pai? - E meu nome é Pita Morgan. Aquele... É meu pai.
Ela realmente parecia ser aquele tipo de garota que fazia o tipo "good girl"; fazia tudo o que tinha de fazer, estudava, trabalhava, ajudava em casa e não era um problema quando o assunto em pauta eram garotos ou pílulas. Quando a menina se recostou na parede, pude ver que por instante ela não estava ali; não, estava num mundo que era só dela, que de fato somente ela conhecia e vivera. Depois de suspirar, me sentei com as costas encostadas num saco de algum tipo de grão. Com as pernas flexionadas e os antebraços apoiados nos joelhos, me esqueci do tempo. Já deveria ter entregue as caixas que estavam no 'caminhão', mas só o que queria fazer era sair daquela rotina de trabalho, todo santo dia passando compras e agora tinha uma oportunidade de fugir daquilo, nem que fosse por alguns minutos. Estava de olhos fechados quando fui levar o cigarro a boca. Antes de encostá-lo nos lábios, esbocei um sorriso e ainda sem abrir os olhos, respondi a menina Morgan. - Quase ninguém é na primeira vez - Roubo. Ela havia pego o cigarro de meus dedos o que me fez sair do mundo em que estava e lhe fitar de forma mais intensa, sem perder o sorriso, na realidade, ele aumentara. Era boa quando queria, gostava de pessoas determinadas. A confirmação de que ela era filha do Morgan, dono do restaurante, entrara, fora processada e ignorada; o que agora me fazia sorrir era saber o nome, nome este que já estava fazendo meu estômago coçar de curiosidade para saber, sem ter a necessidade de perguntar. - Pita... engraçado, Piita, Pii-ta - Ri sozinha fazendo variantes de como entonar o nome da garota, era gostoso de colocar ele para fora.
Pita sorriu mais confiante depois do sorriso da garota, abrindo-se cada vez mais para ela, a cada segundo que segurava a fumaça dentro de si. Ela era bonita, a garota. Estava rindo. Rindo? Pensara Pita. De seu nome. Realmente era incomum, o que seu pai tinha na cabeça no final da adolescência era um mistério dos valiosos, percebeu. Ainda sim, gostava de seu nome, nunca fora confundida com ninguém nas classes, ou chamada por outro nome. Ela riu ao som da voz da menina-ainda-sem-nome.
- E você provavelmente tem um nome - Disse, revirando os olhos com a obviedade do assunto. - Aposto que mais fascinante que o meu - Falou, olhando para os olhos da garota, contendo a vontade de morder o lábio inferior, desceu seu rosto até parar na sua boca, depois a encontrar o cigarro em suas mãos.
Até onde eu sabia, conhecia aquele tipo de olhar, conhecia o sentimento de reparar sem saber que pela primeira vez estava reparando. Confuso. Fingi não reparar onde os olhos dela haviam parado por alguns segundos. Talvez ela já tivesse tido alguma outra experiencia com uma outra garota, mas tinha certeza que não era muito extensa. Coloquei os joelhos no chão e me pus à frente da menina, com uma das mãos apoiada em minha coxa, segurei com a livre o pulso da menina. Não tinha força, só um pouco de firmeza. - Posso ter muitos nomes, mas só um na carteira de identidade; qual deles quer ouvir?! - Com um ar até brincalhão, ri pelo nariz e depois de olhar nos olhos da garota, trouxe sua mão para mais pero e traguei o cigarro que se encontrava na sua mão, dali mesmo, sem se quer retirá-lo de seus dedos. Logo depois lhe soltei o pulso e encolhi os ombros, voltando a minha posição anterior, encostada no saco. se grãos. - Mas ele não é tão fascinante assim, existem outras com o mesmo nome que o meu, já o seu... - Pisquei com um dos olhos, sentindo a fumaça que parecia ficar impregnada nos pulmões e ia saindo aos poucos, lhe toquei o joelho, dando um pequeno empurrãozinho. - É único
O jeito com que ela torcia as palavras à seu favor, fazendo-a rir, sentir como se nada mais fosse tão digno de preocupação ou importante o bastante para ter sua atenção voltado àquele assunto. Assim que a mão livre da garota tocou-lhe o pulso, Pita encolheu-se um pouco, intimidada talvez pela proximidade, ainda que achasse a ditância pequena, às vezes parecia grande.
- Posso ouvir todos? - Levantei uma sobrancelha, sorrindo. O cigarro nas mãos dela, não atreveu-se a tragar outra vez. Havia certo medo na coragem de Pita, talvez não fosse o suficiente para fazê-la mudar totalmente de ideia. Embora já tenha feito em um primeiro momento, como seriam as outras vezes? Teriam... Outras vezes? Pita mordeu o lábio inferior com vontade, pouco depois da menina soltar seu pulso. Sorriu-lhe ao ouvir as doces palavras que sairam de sua boca, ainda que parecessem impregnadas de fumaça, eram doces como mel. Sem graça, Pita abaixou o rosto, ainda mostrando os dentes de forma alegre.
Levantei as mãos na altura dos ombros e levantei juntamente as sobrancelhas. - Você ainda não tem esse poder - Depois de rir baixo e de forma rouca, pigarreei e passei as mãos pelos cabelos curtos continuando o caminho até atrás de minha nuca. Fiquei a observar a garota por um tempo, como se pudesse ler o que se passava por debaixo daquelas madeixas loiras, pena que não era possível, porque estava quase a sete palmos, de curiosidade, por dentro. Com uma expressão tranquila no rosto, estendi uma das mãos em direção da garota. - Já que estamos nos apresentando... Volkova, Erika Volkova, e não diga prazer, porque ele é todo meu - Um riso curto se fez; como as vezes conseguia ser idiota perto de alguém. O trocadilho era infâme, mas quem se importa?! Ela?! Acho que não se importaria demais... talvez seu pai, mas quem era o velho mesmo?!
Erika. Um nome bonito para um rosto bonito. O sorriso que trazia nos lábios refletiu em seu rosto, trazendo-lhe à vida de volta. Havia curiosidade e desejo em tudo que ela dizia, a moralidade estava por baixo dos lençóis e quem se importava? Pita estava finalmente entendendo o que o destino quis dizer quando colocou aquela garota no depósito do restaurante hoje. Precisava ver além de dois palmos a sua frente, enxergar mais do que os sermões de seu pai, os ensinamentos de sua mãe e obviamente, criar os próprios limites e princípios. Erika estava ali agora, parecia importar mais do que tudo, àquela hora no depósito, rindo, com um cigarro na mão. Quem era ela mesmo? Oh. Pita Morgan. A nova, Pita. Ela gostava do que ouvia da menina de cabelos curtos, do som da sua voz, da pacificidade da conversa, daquele ritmo.
- Erika Volkova - Pita deu de ombros mentalmente e aproximou-se para dar um selinho na menina à sua frente. Os lábios se encostaram, de vagar e demoradamente, encaixando-os perfeitamente num movimento suave. A menina dos cabelos loiros deixou-os cairem em ondas nos braços de Erika e sem dizer uma palavra, virou-se, saindo pela porta do depósito.
Lábios ligeiros e macios; é, não havia me enganado quanto a textura que eles tinham quando a vira num primeiro momento. Parecia brincadeira, não era?! Talvez fosse, talvez fosse só uma boa recompensa por ser uma boa pessoa... Okay, corta essa, só estava tendo sorte e é isso. Do que estou falando?! Bem, tentando encontrar alguma explicação para ela ter me beijado, se até aquele momento ela não havia se mostrado aquecida a realmente ter um contato mais próximo do que aqueles palmos de distância que tínhamos uma da outra. Enfim, não interessam os motivos, só que aconteceu e ela estava indo embora. Sim, era só um selo, mas por que não almejar mais do que isso?! E aquela chance estava se mandando do depósito. Em dois segundos estava atrás dela lhe segurando a mão; não, não, meu ego sempre fora maior que minhas vontades, então não haveria de pedir um re-play da iniciativa que ela tinha tomado; só precisava de mais um diálogo e este era o tempo suficiente. Suficiente para que?! Tivesse o que queria. - Hey, espera... preciso de sua ajuda -O cigarro jazia no chão, morto pelo fogo. Sem me fazer, cheguei o mais próximo da garota que podia, lhe soltando o braço. - Preciso que alguém assine p'ra que eu possa descarregar a encomenda- As palavras saíram arrastadas e com um toque de marra, fazer o que?! Ninguém é de ferro, logo todos somos imperfeitos...
Pita não queria ouvir o que ela tinha a dizer do beijo. E se ela não dissesse nada? Aquele significado oculto. Pita nunca havia beijado uma garota antes, era estranho dizer como fora igual aos outros, exceto pelo sentimento recente no peito, que não tinha nome ainda. Uma mão lhe puxou pelo braço, era ela. Erika havia ignorado o beijo, fora tão ruim? Percebeu o rosto queimar, ainda que estivesse rezando para todos os deuses para não corar naquela hora. Pita virou, séria, queria ou não queria um comentário? Sentiu-se mal de repente, não esboçou sorriso algum desta vez. Apenas tirou uma caneta delicadamente do bolso e assinou o papel que Erika trazia nas mãos.
- Obrigada - Disse, fitando a mão que ainda lhe segurava. Agora as dúvidas eram maiores do que antes.
Um papel assina, nada de sorriso no rosto. Ela ficara brava?! Importava, mas ao mesmo tempo não, só queria, precisava dar mais um recado a ela. O papel fora guardado no bolso traseiro da calça e então finalmente lhe soltei o braço. "Obrigada". Pleo que? Não sabia, Provavelmente ela não gostara do beijo, ou seja lá qual fosse o motivo pelo qual ela estava fugindo dali, só o que sempre tinha dentro de mim, era que não ia recuar; quem perde uma oportunidade tende a perder mais uma, duas, três; todas as que a vida lhe oferece, desde que havia colocado aquilo na cabeça, não fazia mais as coisas pensando no futuro, só no que estava sentindo no presente, como ali, naquele instante. Sem esperar muito, não querendo dar tempo suficiente para que ela pudesse fugir, lhe toquei entre o rosto e o pescoço antes de lhe beijar outra vez. Um beijo curto, intenso e que não queria ser o único. Só queria dizer o que não conseguia com palavras, sempre fora assim, palavras eram complicadas as vezes, mais fácil agir de alguma forma. Antes que ela pudesse recuar, o fiz e sentindo a boca seca, passei a língua pelos lábios e sorri de forma tranquila. Viesse um sorriso ou um tapa, não importava. - Espero te ver outro dia por aqui... Pita-
Nunca pudera imaginar o que viria a seguir, depois de sua assinatura. Pensara tanto naqueles poucos segundos sobre o beijo que ela não havia gostado, supostamente. Até sentir a mesma boca na sua outra vez, um pouco diferente, agora demonstrando um significado que Pita não queria entender. As mãos de Erika pararam entre seu pescoço e seu rosto, de forma quase carinhosa, gostosa. Um beijo apressado, deixando de lado as inseguranças e incertezas. Pita correspondeu enquanto pôde, depois para buscar o fôlego. Então veio um sorriso, como quem dizia um olá faceiro, que essa não era a última vez.
Sem dizer mais nada, só ainda com a impressão dos lábios dela nos meus, lhe sorri e saí dali; agora era hora de descarregar o que tinha de descarregar.É, as vezes a vida traz surpresas, como em alguma daquelas séries de televisão americana, todo fim precisa de uma frase marcante, essa é a minha antes de outra vez, voltar para o bendito armazém do tio Salazar; mas voltar dessa vez com um sorriso satisfeito no rosto, não é que pela primeira vez o maldito emprego em seu mercado havia me trazido lucro?!
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